Intervenção dos EUA na Venezuela pode gerar efeitos setoriais no Brasil
A pesada intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tende a ter implicações no Brasil, porém os impactos potenciais devem ocorrer em diferentes escalas, dependendo do segmento.
Enquanto, na macroeconomia esses efeitos tendem a ser pouco sentidos no curto prazo, na esfera política e em setores como energia e mineração, no médio e longo prazo, os impactos podem ser mais relevantes.
Desde a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças de segurança dos Estados Unidos, a administração do presidente Donald Trump tem feito uma série de anúncios indicando que, além da captura de Maduro, a intenção é controlar, no longo prazo, a produção e a exportação de petróleo da Venezuela.
Os EUA também sinalizam diretrizes sobre como o país latino-americano deve utilizar os recursos financeiros obtidos com a venda de petróleo, sugerindo que sejam destinados à compra de produtos norte-americanos.
"Em termos práticos, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem efeito nulo para a macroeconomia do Brasil, porque há anos a Venezuela já apresentava indicadores muito ruins e a relação comercial com o Brasil era praticamente inexistente. Por isso, para o PIB do Brasil, o que acontece na Venezuela agora não terá impacto esse ano", disse à BNamericas Roberto Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Petróleo
Troster, porém, alertou que esse cenário pode mudar no longo prazo, à medida que avancem os planos dos Estados Unidos no setor petrolífero venezuelano.
A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris, à frente da Arábia Saudita, com 267 bilhões de barris. Mas, em termos de qualidade, o petróleo venezuelano é considerado pesado ou extrapesado, o que limita seu uso e eleva os custos de produção.
Dependendo do avanço dos planos dos Estados Unidos, o Brasil poderia ser afetado tanto em termos de atração de investimentos pro seu segmento de petróleo, com mais empresas globais direcionando recursos para projetos na Venezuela em detrimento de outros países, quanto em caso de um aumento expressivo da produção de petróleo venezuelano, o que poderia exercer pressão baixista sobre os preços internacionais.
Uma pressão baixista nos preços do petróleo afetaria de forma importante a balança comercial brasileira. Em 2025, o petróleo foi o produto mais exportado pelo Brasil, superando a soja e também o minério de ferro.
Mineração
Outro segmento que pode sentir efeitos no longo prazo é o setor de mineração.
Analistas têm observado que, além do petróleo, as reservas minerais da Venezuela, hoje pouco exploradas, também podem entrar no radar dos Estados Unidos. Isso ocorre em um momento em que o presidente Trump tem reiterado interesse em anexar a Groenlândia aos Estados Unidos, região conhecida também por suas elevadas reservas minerais, inclusive de terras raras.
"A Venezuela interessa aos Estados Unidos por causa de suas reservas de petróleo, mas também é preciso lembrar que os EUA têm demonstrado interesse crescente no setor mineral da América Latina, especialmente em elementos de terras raras. Esse movimento sinaliza que os Estados Unidos querem reafirmar a região como parte de sua esfera de influência e conter a crescente presença da China nas últimas décadas", disse à BNamericas André Pereira César, analista político da consultoria Hold Consultoria.
A China exerce um papel-chave na mineração brasileira. O país asiático é o principal comprador de commodities minerais produzidas no Brasil e, além disso, nos últimos anos, empresas chinesas têm realizado uma série de aquisições de ativos e projetos de mineração no país.
"Por tudo que estamos vendo nos últimos dias, não dá para descartar que, em algum momento, os Estados Unidos queiram impor algum tipo de sanção a países que fazem negócios com a China, o que afetaria o Brasil. Isso, claro, para reduzir a influência da China na região, " disse César.
Eleições no Brasil
A crescente influência dos Estados Unidos na América Latina também coloca analistas em alerta para uma potencial interferência no cenário político.
No Brasil, o tema é particularmente sensível, à medida que, em outubro, o país terá eleições para presidente, governadores, deputados e senadores.
O atual presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, já anunciou intenção de se candidatar à reeleição. Enquanto isso, partidos de direita no país, desde a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado nas eleições anteriores, têm encontrado dificuldades para articular um nome de consenso.
"Hoje, trabalhamos com uma probabilidade de cerca de 60% de reeleição do presidente Lula, que segue como favorito", disse à BNamericas Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia Group.
"A questão venezuelana pode ter alguma ressonância no discurso da oposição do Brasil e pesquisas mostram apoio relevante à intervenção americana na América Latina. Isso pode ajudar taticamente a oposição no curto prazo, mas não deve alterar de forma estrutural o cenário eleitoral," disse.
Lula, que historicamente foi um apoiador de Maduro, criticou a operação dos Estados Unidos na Venezuela. Já políticos de direita no Brasil, como o governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cotado como potencial candidato às eleições presidenciais, comemoraram a captura.
As relações políticas entre Brasil e Estados Unidos têm sido marcadas por uma série de nuances desde que Trump assumiu o governo. Em meados do ano passado, Trump impôs uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras aos Estados Unidos, sob a alegação de que o processo judicial contra Bolsonaro representava uma perseguição política.
Com o tempo, o tom tenso deu espaço a uma relação mais equilibrada, com Trump e Lula abrindo espaço para diálogo, o que resultou em uma série de exceções às tarifas. Atualmente, mesmo após condenar a captura de Maduro pelos Estados Unidos, Lula evitou fazer críticas diretas a Trump.
Analistas veem isso como uma tática de Lula para tentar evitar que a administração Trump atue de forma direta nas eleições no Brasil, apoiando candidatos de direita.
Tal tática de Lula ganha força à medida que a administração Trump dá sinais recentes de que não é necessariamente sensível a apoiar políticos de direita, mostrando-se aberta a trabalhar junto com membros da então administração de Maduro, que agora estão assumindo a Venezuela.
Infraestrutura
Enquanto isso, um dos setores mais dinâmicos do Brasil em termos de investimentos e novos contratos, a infraestrutura, deve perceber pouco impacto das questões geopolíticas.
"Não temos registrado, neste momento, nenhuma sinalização de dificuldades no avanço da agenda de leilões, que já está bastante robusta para o primeiro trimestre deste ano", Roberto Guimarães, diretor de Planejamento e Economia da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), disse à BNamericas.
"Os investimentos em infraestrutura são decisões que olham para horizontes de vinte a trinta anos, por isso há uma maior resiliência desses investidores", acrescentou Guimarães.
O país terá pelo menos 11 leilões de concessões e PPPs, com destaque para os setores de infraestrutura e saneamento, ao longo do primeiro trimestre deste ano. Até agora, os leilões já agendados devem gerar investimentos projetados de cerca de R$34 bilhões (bi).
(A versão original deste conteúdo foi redigida em português)
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