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O que a guerra entre Rússia e Ucrânia traz para o setor de mineração

Bnamericas Publicado: quinta-feira, 03 março, 2022
O que a guerra entre Rússia e Ucrânia traz para o setor de mineração

A invasão russa à Ucrânia provavelmente levará a preços mais altos para commodities de mineração, além das pressões inflacionárias em andamento.

José Carlos Martins, da Neelix Consulting Mining & Metals, que durante anos foi executivo sênior da Vale, bem como da CSN e da Aços Villares, entre outras, conversou com a BNamericas sobre o impacto da guerra.

BNamericas: Quais efeitos você espera para o setor de mineração e metais da guerra entre Rússia e Ucrânia?

Martins: Uma reposta mais exata para essa pergunta só sera possível quando tivermos mais informações sobre a extensão e duração quanto ao grau de sanções que os países do Ocidente irão continuar impondo contra a Rússia.

O que eu posso adiantar é que os efeitos para a economia global e para o mercado de commodities tendem a ser enormes. Levando em conta as experiências do passado deveremos ver, a depender do grau de sanções contra a Rússia, o impacto inverso que tivemos com o colapso da União Soviética, no início dos anos 90.

No colapso soviético, eu já era CEO da Aços Villares, e naquela época o que vimos foi um efeito desinflacionário no mundo todo.

A União Soviética, ao mesmo tempo que era uma grande produtora de quase todo tipo de commodities, também era uma intensa compradora de aço, que abastecia tanto seu poderio militar quanto sua indústria.

Quando o regime soviético entrou em colapso, toda aquela demanda por aço desapareceu, e isso gerou um impacto baixista nos preços das commodities no mundo por muitos anos.

Agora, o efeito é inverso: a Rússia é grande produtora de commodities e exporta muito, como por exemplo minério de ferro, níquel, carvão, entre outros. A Rússia não tem uma demanda por aço e outros minerais como tinha a União Soviética, ou seja, hoje teremos um impacto na oferta e não na demanda.

Qualquer sanção contra a Rússia tem um efeito inflacionário muito grande no mundo todo.

Nota da BNamericas: Segundo Martins, logo após o colapso da União Soviética em 1991, o preço do minério de ferro caiu 20% e permaneceu estável até 2003, quando o apetite da China pelo mineral começou a crescer e gerar aumentos de preços.

BNamericas: Quais empresas e países latino-americanos tenderão a se beneficiar do cenário atual?

Martins: O [impacto do] conflito tende a beneficiar muito as empresas de mineração de maneira geral, por causa do aumento no preço das commodities, que deverão continuar subindo. Porém, as empresas podem não ter muito espaço para comemorar, porque, como os riscos inflacionários no mundo são enormes, isto pode também afetar os custos, principalmente no que se refere a energia.

A Rússia exporta por ano cerca de 75 milhões de toneladas de minério de ferro. É um produtor importante e cerca de 45 milhões de toneladas desta produção vão para a China. A produção russa de níquel também é relevante e sanções contra a Rússia também irão pressionar o preço do níquel. 

A Rússia é também produtora de 40% do paládio produzido no mundo. 

Já a Ucrânia é um grande produtor global de manganês, ou seja, são muitos materiais impactados por este conflito.

Acho que, em termos de empresas, a Vale deve ser extremamente beneficiada, porque os dois produtos que ela mais produz – minério de ferro e níquel – tendem a ter aumento de preços.

Em termos de países, se não fossem os problemas do regime politico, eu diria que a Venezuela talvez fosse o país mais beneficiado pelo conflito, por ser um grande produtor de petróleo, mas sabemos que talvez ela não consiga se beneficiar disso.

Porém, além da Venezuela, eu destacaria que a Colômbia também conta com potencial de ser uma grande beneficiária, por ser grande produtora de níquel e carvão, assim como o Brasil, por razões já mencionadas, e também o Chile, porque o cobre também tende a reagir com preços mais altos.

BNamericas: O governo brasileiro tem mostrado preocupação com a questão da produção de fertilizantes e defendido a exploração em terras indígenas. Você acredita em aumento da pressão em relação a isso?

Martins: A exploração em terras indígenas é uma questão que toda a sociedade tem que participar. Temos que fazer discussões técnicas, sem envolver paixões.

O Brasil tem uma vasta extensão de terra, mas temos muito sol e muito terreno arenoso, o que faz que muita dessa terra não seja consideravelmente fértil. Ou seja, é necessário muito fertilizante para a nossa agricultura e a maior parte disso é importada.

Precisamos reduzir essa dependência [de fertilizantes importados] com produção local e avaliar melhor a exploração e produção de minerais associados aos fertilizantes.

Mas isso irá depender do avanço das discussões entre Congresso e sociedade. Hoje as coisas não avançam só porque o presidente deseja.

BNamericas: Diante de preços altistas, o setor de mineração tende a apresentar resultados positivos este ano. Isto pode aumentar a pressão por mais impostos sobre as empresas do setor?

Martins: A mineração tem estado no centro das discussões com relação a impostos por causa dos bons resultados que vem tendo desde o início da pandemia. 

Há pressões por aumento de impostos tanto por parte do Congresso como por parte de governos estaduais.

A tendência é que esta pressão aumente, pois setores lucrativos tendem a ser alvo de mais cobrança de impostos.

BNamericas: Qual o impacto que a eleição presidencial de outubro tende a ter no setor de mineração?

Martins: Não há nenhum segredo que governos de esquerda defendem maior intervenção na economia. Acho que, se tivermos um governo de esquerda no país, teremos sim uma maior intervenção do governo no setor. 

Já temos um exemplo disso atualmente na região, que é o que está ocorrendo no Chile e no Peru.

Eu defendo sempre que o setor deve ser orquestrado pela esfera privada. A atuação do governo deve ser só na implementação de impostos e regulação, nada mais do que isso. 

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