Perguntas e Respostas

Rockwell: ‘Teremos cadeias de valor redundantes e alternativas.’

Bnamericas Publicado: sexta-feira, 07 outubro, 2022
Rockwell: ‘Teremos cadeias de valor redundantes e alternativas.’

A transição energética, a redistribuição dos processos produtivos e as políticas públicas industriais e estratégicas de longo prazo são os principais elementos que moldam os negócios da Rockwell Automation na América Latina.

Importante player global de automação industrial, na América Latina a empresa se concentra nos setores de óleo e gás, alimentos, mineração, indústria automobilística e celulose e papel. O plano estratégico global da empresa com sede em Wisconsin, EUA, envolve a meta de atingir US$ 1 bilhão em receitas anuais até 2026.

Nesta entrevista, Gustavo Zecharies, VP da América Latina da Rockwell Automation, fala sobre as demandas por automação, os impactos da cadeia de suprimentos e políticas econômicas na América Latina, e muito mais.

BNamericas: Quão bem estão as operações da Rockwell na América Latina? Quais são os impactos gerais da digitalização industrial em um desafiador cenário macroeconômico?

Zecharies: Estamos saindo de dois anos marcados por várias situações. A primeira coisa foi a pandemia, que mudou nossa forma de pensar. Não apenas a forma como trabalhamos, mas a forma como os nossos clientes trabalham. Isso, em primeiro lugar, trouxe muitas oportunidades de negócios para o nosso lado, porque há um renascimento na necessidade de nossos clientes digitalizarem suas operações.

Isso é algo sobre o qual estamos ‘evangelizando’ há anos em nossa comunidade de clientes. A necessidade de os clientes se conectarem remotamente, verem seus ativos funcionando, para conseguirem subir para níveis de controle onde sejam menos dependentes de variações de mão de obra e número de funcionários.

Então isto definitivamente trouxe, claro, com todas as coisas negativas que uma pandemia traz, um novo nível de priorização por parte dos clientes com coisas que a gente vê como importantes para a evolução da indústria em geral.

Em segundo lugar, a situação que temos com a cadeia de suprimentos. A Rockwell, como todas as empresas do nosso segmento, utiliza chipsets e toda a capacidade da cadeia de suprimentos global para poder distribuir produtos. E não vou negar que tem sido um elemento negativo para nossa empresa.

Todas as empresas técnicas tiveram que repensar sua cadeia de valor para alcançar os clientes com eficiência. Isso aumentou enormemente o estresse das nossas equipes de trabalho, projeto e entrega de produtos, e é algo que nos marcou.

Mas estamos convencidos de que isso nos tornará, quando sairmos desta crise, muito mais fortes. Teremos cadeias de valor redundantes e alternativas. Coisas que não tínhamos antes.

BNamericas: E os obstáculos macroeconômicos?

Zecharies: Vários governos mudaram na região. E, globalmente, temos um processo democrático que tende a mudar radicalmente entre governos de direita e governos de esquerda.

Os governos da América Latina têm uma influência muito maior na economia e no desenvolvimento industrial dos países do que na América do Norte.

O governo muda e de um dia para o outro trabalhamos apenas com petróleo ou não, trabalhamos ou não com hidrogênio etc. Há coisas que mudam radicalmente nos governos que têm exigido que agilizemos e adaptemos muito nosso foco.

Em outras palavras, não posso ter um plano de cinco anos para o tipo de setor com o qual trabalharei, porque as coisas aqui mudam muito mais rapidamente.

Então esses três pontos, a cadeia de suprimentos, a Covid-19 e as mudanças macro geopolíticas que temos na região tornaram esses anos muito […] interessantes.

Dito isso, crescemos muito bem nos últimos anos. Eu diria que este ano vamos terminar com um crescimento de 17% em nossas vendas, ano a ano. Este é o segundo ano em que tivemos crescimento de dois dígitos na região.

Temos um plano de crescimento de cinco anos que iniciamos há dois anos e que exige que dobremos nossos negócios até 2026, para que possamos atingir US$ 1 bilhão em vendas em nosso grupo até lá. Apenas na automação. E apoiamos isso com planos de crescimento estratégico de cinco anos por país.

BNamericas: Quando você espera a normalização da cadeia de suprimentos? É possível fazer tal previsão?

Zecharies: É muito provável que, com os juros e a inflação que vemos em todo o mundo, o consumo caia. Não há outra maneira.

Portanto, uma queda na demanda acomodará um pouco os enormes atrasos que existem globalmente e isso retornará a um equilíbrio entre oferta e demanda que mais ou menos nos tirará dessa crise. Mas com certeza não é o que queremos.

Caso não haja recessão, que juros e inflação não tenham efeito sobre a demanda, provavelmente levará um ano e meio, dois anos, para que isso se resolva.

Se houvesse uma recessão, daqui a cerca de 12 meses voltaríamos a um equilíbrio entre oferta e demanda.

Na América Latina, isto tem um impacto diferente. Se estudarmos todas as recessões globais, a América Latina tende a entrar em recessão um ano depois da América do Norte e da Europa.

Porque temos o efeito de que as commodities que vendemos aqui na região tendem a perder seu valor um ano após o início de uma recessão do outro lado. Então, vejo 2023 ainda otimista sobre o que vai acontecer aqui na América Latina. Este é um dos dois efeitos.

BNamericas: Qual o outro?

Zecharies: O segundo efeito é que, dadas as dificuldades que temos em trazer produtos manufaturados da China, todas as empresas globais estão pensando em criar fontes alternativas de distribuição. Chips, mão de obra, tudo.

A América Latina tende a estar do lado dos amigos do ponto de vista político. México, Brasil, Colômbia estabeleceram acordos comerciais com os EUA.

Portanto, é muito provável que vejamos o tão esperado efeito de reshoring, friend-shoring ou nearshoring. As empresas vão pensar em trazer sua capacidade fabril [para cá] ao invés de fazê-lo na Índia e na China, que hoje estão mais alinhadas com a Rússia, por exemplo. Vão começar a pensar no México, no Brasil, na Colômbia. Sobre Porto Rico, Argentina, Chile.

Porque aqui é o fuso horário, temos gente capacitada, capacidade de fabricação e mão de obra mais barata do que na América do Norte.

Então, acho que a tão esperada promessa de nearshoring começará a se concretizar nos próximos anos e isso também teria um impacto positivo na América Latina.

BNamericas: Mas não há limites, como a verticalização incompleta das cadeias produtivas, na América Latina?

Zacarias: Sim e não. Acredito que a dificuldade não é um problema de capacidade, mas de vontade política dos governos em colocar em prática todos os meios para que as plantas venham.

Em outras palavras, temos que nos tornar atraentes para o investimento estrangeiro. É algo que está na agenda de todos os governos. E [precisamos] de um plano comercial interamericano entre os diferentes países.

É muito provável que, se o Brasil quiser negociar com o Paraguai, na verdade terá mais facilidade em fazê-lo com os EUA ou Canadá do que com o mercado vizinho.

Acredito que devemos pensar melhor sobre os acordos interamericanos de livre comércio. Para que eu possa, por exemplo, pensar em chipsets, ter a parte eletrônica no Paraguai, a parte mecânica no Brasil, terminar o produto na Colômbia e levar para os EUA. Estamos a anos de isso acontecer, mas acredito que o início deste processo é agora.

BNamericas: Como você avalia eventos polarizadores como as eleições na Colômbia, o processo constitucional do Chile e as eleições do Brasil – que muitas vezes também geram mudanças profundas?

Zecharies: Em geral, vemos na América Latina o equilíbrio entre protecionismo e abertura. Este pêndulo tende a complicar um pouco as coisas a longo prazo.

Claro, você tem que incentivar a economia e a indústria local. Mas também devemos estar cientes que a indústria local é muito influenciada pela concorrência e pelas capacidades que as indústrias gerais conseguem estabelecer nos países.

Enquanto houver governos que entendam que o investimento estrangeiro traz capacidade, traz competitividade local, e que tenham leis para proteger a indústria nacional, enquanto esse equilíbrio for mantido, acho que as coisas vão muito bem.

Agora, quando são colocados enormes impostos sobre tudo o que é importado em termos de subpartes, isto acaba afetando a economia local. Mas há outros aspectos também.

BNamericas: Quais?

Zecharies: Muitos países estão empenhados em educar seu povo, a chamada economia laranja. Exportar não cérebros, mas serviços com capacidade local.

A Colômbia faz isso muito bem. O Uruguai se apresenta muito bem lá também, a Costa Rica se apresenta muito bem. Eles se promovem como países que querem exportar capacidade intelectual.

Acho que devemos nos orgulhar da educação que vemos aqui em toda a América Latina, especialmente a educação na parte técnica, e nossos governos devem capitalizar essa capacidade.

Mas voltando à questão: claro, novos governos trazem muita mudança do ponto de vista tributário e da opinião pública e tudo isso. Mas isto acontece antes de mais nada no lado político. No lado industrial, na automação, as coisas geralmente permanecem em um determinado centro, apesar de alguns impactos em custos, impostos.

Agora, estas mudanças políticas têm efeito na adoção de novas indústrias, como mencionei antes.

Por exemplo, para falar do Brasil, há um grande movimento para explorar novas áreas em tudo que se enquadre na sustentabilidade. O Brasil é um dos países em que tenho visto mais adoção da possibilidade de fazer hidrogênio verde e poder exportá-lo.

Dependendo um pouco da tendência política dos países, há mais investimento em coisas um pouco mais progressistas e há outras onde a indústria um pouco mais tradicional é preservada e protegida. Exploração de petróleo, papel e celulose, etc.

Talvez uma indústria chegue a ser suplantada por outra no devido tempo, mas a capacidade, a quantidade de atividade permanece constante, independentemente da tendência política dos países.

BNamericas: Quais são seus principais mercados e segmentos? Você notou alguma mudança no sentido de um novo segmento em destaque?

Zecharies: A indústria de alimentos e bebidas, toda a parte de petróleo e gás, a parte de mineração, papel e celulose, a indústria automotiva. Esses são os suspeitos de sempre, onde estamos muito presentes.

Mas o que começamos a ver no horizonte é sobretudo a parte da sustentabilidade. Vemos hoje muitas empresas do setor petrolífero que começam a estabelecer alternativas para poder gerar energia. Acredito que isso vai marcar um pouco como vamos nos mover.

E com isso vamos ver carros elétricos. Com os carros elétricos, vamos precisar de lítio e cobre, o que traz também a necessidade não só de fabricar motores elétricos para carros, mas também de trazer toda a rede elétrica para a sua casa, de modo a poder carregar corretamente o seu carro elétrico no futuro.

Isto vai criar e mudar a indústria do cobre, a indústria automobilística, toda uma transformação que vai empregar muita gente e vai nos dar muitas oportunidades para podermos desenvolver nossas atividades de forma um pouco mais sustentável. Acredito que teremos enormes oportunidades com isso.

BNamericas: E em termos de países?

Zecharies: Há um pouco de tudo. Hoje, por exemplo, países como o Equador estão surgindo como um lugar que se abre um pouco aos mercados, que estabelece novas políticas e que gera novos investimentos.

Países como Porto Rico, em tudo relacionado ao desenvolvimento de produtos farmacêuticos – outro país que está realizando muito desenvolvimento do ponto de vista industrial.

Então, eu diria que há uma grande diversidade em toda a região. Não posso definir uma tendência que diga que isso vai acontecer neste ou naquele país especificamente.

Há um status quo no México, provavelmente uma mudança no Brasil. Devemos esperar para ver o novo governo na Argentina também.

Continuamos no Chile com grande demanda por tudo que o Chile faz, toda a parte de mineração. Provavelmente passaremos por todas nossas vidas e ainda seguiremos consumindo cobre.

BNamericas: O quão se destacam os investimentos na América Latina no plano 2026?

Zecharies: Os números são coisas que tentamos manter em sigilo. Porém, mais do que investimentos, o que vemos é uma diversificação de nossas atividades.

Vamos ter que trabalhar, por exemplo, nas conexões governamentais, para entender exatamente o investimento que vamos ter. Se sabemos que, digamos, o Peru quer investir em transformação energética, o fato de termos esse conhecimento nos permitirá reagir e nos posicionarmos melhor onde faremos esses investimentos.

Outro ponto é a questão da educação, a economia laranja, como mencionei.

Com a indústria 4.0, 5.0, teremos que transformar várias pessoas que trabalhavam anteriormente na produção e colocá-las em serviços, programação e design e capacidades afins.

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