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As estratégias do BNDES para financiar telecom no Brasil

Bnamericas Publicado: sexta-feira, 01 julho, 2022
As estratégias do BNDES para financiar telecom no Brasil

Apesar de alguma redução, o BNDES continua sendo um grande provedor de financiamento e crédito, desembolsando R$ 64,3 bilhões (US$ 12,3 bi) em 2021, por meio de 191.093 transações para 117.082 clientes.

Cerca de 66% do total foi para a cadeia produtiva e 97% para micro, pequenas e médias empresas.

Recentemente, o banco disse que irá investir R$ 2,5 bilhões em cinco fundos, que devem priorizar logística e transporte, energia, mobilidade urbana, saneamento básico e telecomunicações.

O BNDES também será um dos agentes financeiros, por meio de outras instituições credenciadas, do reformado Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, o Fust.

Uma nova lei permitiu que o Fust, alimentado com parte da receita bruta das operadoras, financiasse a expansão da banda larga, ao invés da telefonia fixa, que era o serviço essencial quando o fundo foi criado no final dos anos 1990.

Ainda pela nova lei, pelo menos 18% dos recursos do Fust deverão ser destinados à conectividade de escolas públicas, e os projetos serão definidos por um conselho gestor. O fundo arrecada pouco mais de R$ 1 bilhão por ano. Desde 2001, ele levantou mais de R$ 44 bilhões em valores reais.

O BNDES também opera outras linhas de telecomunicações e inovação, como Finem, para provedores de internet; Funttel, para o desenvolvimento tecnológico das telecomunicações; Finep, para pesquisa e inovação; Finame, para máquinas, além de outros.

Nos bastidores do Painel Telebrasil Summit, a BNamericas conversou com Ricardo Rivera, chefe da unidade de Indústrias Intensivas em Tecnologia e Conectividade do BNDES, sobre Fust, empresas de telecomunicações, bem como as opções de financiamento para o setor.

BNamericas: Quais opções de financiamento de telecomunicações e inovação o BNDES priorizará? Haverá um foco maior em recursos reembolsáveis, por exemplo?

Rivera: Considerando o cenário fiscal, no final das contas, na hora de fechar o orçamento – e eu espero estar errado – a perspectiva é de que não haverá espaço para se ter um volume de não-reembolsáveis muito grande. 

O banco tem linhas não-reembolsáveis para operar, como por exemplo através da iniciativa Educação Conectada, mas entendemos que, pelo menos curto prazo, o Fust vai ser majoritariamente crédito [recursos reembolsáveis]. 

Um crédito barato e de longo prazo, o que abre espaço para fazer política pública e financiar a expansão, por exemplo, de pequenos provedores, de maneira bastante interessante e eficiente.

BNamericas: Quais são os desafios?

Rivera: O desafio, agora, é, a partir dessa diferença de taxa [de juros] do mercado e a taxa que o fundo terá, estabelecer quais serão as contrapartidas por parte dos provedores e operadores que vão acessar o recurso. 

Estamos neste momento sentados à mesa com a Anatel e o Ministério [das comunicações] dimensionando essas contrapartidas.

Entendemos que tem espaço para expandir a fronteira econômica de telecom. 

BNamericas: Como assim?

Rivera: Todo o planejamento de rede das operadoras e dos provedores analisa se naquela determinada região tem um conjunto de possíveis assinantes que vão rentabilizar o investimento que eles vão fazer ao investir ali.

O que acaba acontecendo, especialmente em meios rurais, é que você tem situações com 100, 150, 200 casas afastadas 10 km, 15 km, 20 km de um ponto de rede. Nenhum provedor vai até lá, porque para rentabilizar uma rede desse tamanho, aquelas 100 casas não vão pagar o investimento feito.

Então, atualmente, muito do vazio digital que entendemos que existe no Brasil está nessas áreas rurais, que estão afastadas do centro, das sedes dos municípios.

Se você consegue propor uma taxa baixa, com prazo longo, eventualmente algumas dessas áreas – esperamos que muitas delas – vão se tornar rentáveis. E nessas áreas têm escolas [um dos focos obrigatórios do Fust].

É possível, no limite, ter um modelo em que se pode financiar a fibra chegar até a escola e da escola distribuir o sinal, seja por rede 5G ou mesmo por fibra.

BNamericas: O BNDES tem outras linhas além do Fust, e até modelos, como financiamento de fornecedores de fibra, conforme anunciado recentemente com [a fabricante de equipamentos ópticos] Padtec. Todas essas estratégias são concomitantes?

Rivera: Isso, como o Funttel [Fundo de Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações]. No caso do Funttel, eu financio o fundo e na prática estou financiando o que é o propósito dele. 

Eu estou financiando 100% de produtos de alta intensidade que foram desenvolvidos no país, que é o caso da Padtec.

Mas não há por que diferenciar a importância que a inovação tem para o país – que é o propósito do Funttel – da importância de ampliar o acesso da banda larga, com todo o acesso à oportunidade por meio da educação – que é o propósito do Fust.

Eu diria que o Fust vai se beneficiar desses instrumentos que aprendemos a desenvolver para o Funttel.

BNamericas: O Fust também pode ser usado para financiar fornecedores de equipamentos?

Rivera: Eventualmente não vai ser com um fornecedor, mas com um distribuidor, por exemplo. Não sei. 

Mas temos que plugar uma contrapartida, como conectar x escolas ou chegar a x áreas rurais. Este entendimento da contrapartida que é o grande desafio [no caso do Fust]. 

O propósito do Fust é levar rede onde não tem. Minha preocupação é menos no equipamento e mais onde esse crédito está potencializando investimento.

BNamericas: O que podemos esperar?

Rivera: Nós estamos nesse momento fechamos este desenho. O Fust tem várias frentes. Estamos pensando tanto em operação direta nossa, com financiamento acima de R$ 10 milhões com recursos do Fust, com contrapartidas, quanto conversas para um eventual fundo garantidor e fundos de crédito. Com fabricantes, fornecedores... nós vamos testando o modelo.

Você tem distribuidores que já financiam, eles mesmos, provedores pequenos, por 12 ou 18 meses. Uma proposta, para estes distribuidores, seria ajudá-los a ampliar esse prazo, numa taxa menor. 

Não adianta colocar o Fust para continuar financiando o que já tem. Temos que melhorar alguma condição na ponta do financiamento. 

E esse provedor que está tendo acesso a esse crédito eventualmente teria que conectar algumas escolas, postos de saúde. É isso que estamos pensando neste momento, mas quem vai decidir isso é o conselho [gestor do Fust].

BNamericas: E debêntures?

Rivera: É um foco, mas hoje está muito mais claro para o banco que ele não deve entrar onde o mercado já está. Se o mercado está financiando bem debêntures, e está, então deixamos o mercado privado financiar. 

Mas podemos apoiar alguns provedores para acessar esse mercado. É um papel que podemos ter: levá-los ao mercado privado de crédito. Nós fizemos isso com a Brisanet, mas tem muito provedor que está emitindo [debêntures] sem chamar o banco.

BNamericas: No ano passado, o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, disse que a carteira do banco para financiamento de ISPs era de cerca de R$ 600 milhões. Como está isso agora?

Rivera: Está um pouco maior. Não tenho esse número corretamente, mas diria que seria algo em torno de R$ 1 bilhão. Estamos crescendo, buscando modelos diferentes. 

Ora financiamos fabricante, ora provedor, ora operadora. Há investidores de 5G com quem estamos trabalhando. Então este ticket pode crescer bastante.

BNamericas: Você acredita que pode haver uma alteração da linha atual do banco, mais focada, com uma eventual mudança de governo no ano que vem?

Rivera: Acredito que não. Não posso falar pelo próximo governo, mas já se provou que o mercado pode financiar uma parte importante do investimento. O governo não precisa financiar tudo. 

Podemos financiar de forma mais qualificada inovação, expansão, universalização. Por exemplo, para 5G, acho que vale a pena o banco estar presente para acelerar o crescimento dessa rede. Mas, para investimento ordinário das grandes operadoras, não faz sentido.

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