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‘O setor de telecomunicações parece cada vez mais infraestrutura’, diz grupo de investimento CDPQ

Bnamericas Publicado: segunda-feira, 17 outubro, 2022
‘O setor de telecomunicações parece cada vez mais infraestrutura’, diz grupo de investimento CDPQ

O grupo de investimento global Caisse de Dépôt et Placement du Quebéc (CDPQ) foi criado em 1965 pela província canadense de Quebec com o papel inicial de administrar os fundos de um plano de aposentadoria universal recém-criado, o Québec Pension Plan.

Seus primeiros investimentos fora do Canadá foram feitos em 1975 e o CDPQ Infra foi criado em 2015 para focar no desenho, financiamento, desenvolvimento e operação de projetos de infraestrutura. Quase 70% do portfólio está agora fora de seu país de origem, acima dos 54% sete anos atrás.

Atualmente, o CDPQ possui cerca de US$ 11 bilhões em investimentos em infraestrutura na América Latina, que representa cerca de 11% de seu portfólio global de infraestrutura, incluindo ativos como rodovias, terminais de contêineres, geração de energia renovável, transmissão de energia e fibra ótica.

Nesta entrevista, Eduardo Farhat, diretor executivo do CDPQ para o Brasil e vice-presidente de infra para a América Latina, fala sobre os planos de investimentos da empresa para a região e os ativos no radar do grupo, além de macroeconomia e marcos regulatórios.

BNamericas: Um dos principais investimentos do CDPQ no setor de telecomunicações na região é sua joint-venture com a Telefónica, no Brasil, para operar a rede de fibra neutra FiBrasil. Em outros mercados, como Chile e Colômbia, porém, a Telefónica optou por uma parceria com a KKR. O que podemos esperar em termos de novos investimentos de vocês?

Farhat: Estamos positivamente surpresos com o resultado da parceria [FiBrasil]. O desenvolvimento da FiBrasil, do FTTH em geral, supera as melhores expectativas que tínhamos. Acredito que o mercado aceita muito bem a tese. Porque por mais diligentes que sejamos, nunca sabemos realmente como será essa aceitação até iniciarmos a operação.

Em suma, estamos muito felizes com a parceria que temos com a Telefónica, tanto a Telefónica Infra na Espanha quanto a Vivo no Brasil.

O fato é que o setor de telecomunicações como um todo se parece cada vez mais com infraestrutura. Durante a pandemia, tornou-se evidente que eletricidade, água e telecomunicações eram essenciais, sendo o resto administrável.

Para nós, que temos uma visão de longo prazo, isso é essencial. Isso nos motiva a alocar mais recursos para o setor. Eu analiso meus investimentos com um horizonte de 20, 30 anos. Tenho uma concessão no México que vai até 2063.

Na Europa, realizamos uma transação em parceria com a American Tower em que compramos o equivalente a 30% das redes da Telxius.

Ou seja, estamos 'povoando' nosso portfólio com essas transações. E a América Latina, em particular, tem muito espaço para criar redes de telecomunicações mais rápidas, eficientes e de menor custo.

BNamericas: O CDPQ pode ir além da fibra, na região?

Farhat: Sim. Outro segmento que vemos com potencial na América Latina é o de torres. É apenas uma questão de os ‘economics’ estarem presentes e serem calculados de uma maneira razoável. Mas é algo que poderíamos explorar.

O mesmo com datacenters, a infraestrutura de datacenters. É um negócio que podemos explorar em algum momento, desde que a economia seja adequada.

O que ainda vemos, no entanto, é um pouco desse 'hype' de mercado que não combina muito bem com o investidor de infraestrutura de longo prazo. Vemos múltiplos muito elevados, sempre baseados no crescimento que está por vir, num [modelo] de tomada de risco que não é condizente com o portfólio que queremos ter.

BNamericas: Então o que você está dizendo é que alguns ativos neste segmento estão supervalorizados?

Farhat: Essa é a impressão que temos. O perfil de risco de alguns desses ativos parece muito mais alinhado com um perfil de capital de risco e private equity do que com um investidor de infraestrutura.

Por definição, preferimos investir em ativos mais maduros, em segmentos em que não dependo tanto de obter um crescimento futuro, permanente e contínuo de um volume muito significativo.

BNamericas: Você mencionou torres e datacenters, segmentos onde o CDPQ ainda não atua na região, pelo menos não diretamente. Há muitos ativos sendo disponibilizados nessas áreas...

Farhat: Sim. E estamos olhando para eles porque o mercado está caminhando nessa direção. Antes, as empresas de telecomunicações eram donas das torres. Hoje [elas fazem isso] cada vez menos. O mesmo caminho está sendo seguido nas redes de fibra. O que é ótimo para nós.

BNamericas: Você está falando com outras operadoras, além da Telefónica?

Farhat: Falamos com outras operadoras, mas temos uma relação muito próxima com a Telefónica. Para outros mercados, eles não são exclusivos para nós e não somos exclusivos para eles. Mas obviamente gostamos de trabalhar com a empresa.

BNamericas: Ainda na fibra, a Petrobras anunciou a venda de sua rede de fibra terrestre. A EB Capital, por sua vez, estaria em busca de compradores para o Alloha Fibra. Esse tipo de ativo também faz sentido para o CDPQ?

Farhat: Depende muito da particularidade do ativo. A Telefónica tem hoje uma rede de backbone e backhaul muito robusta. Se houver um ativo muito grande sobreposto a essa rede, não faz muito sentido para nós.

Mas estamos constantemente buscando oportunidades de aquisição, porque nossa estratégia é tanto para o crescimento orgânico quanto para o inorgânico. Tem que fazer sentido do ponto de vista de abrangência geográfica, penetração, qualidade de serviço etc. Mas é sempre uma possibilidade adquirir empresas que complementem a FiBrasil.

BNamericas: Por que a FiBrasil até agora só anunciou dois contratos, com Sky e Vero Internet, enquanto a V.tal [rede neutra da Oi com BTG Pactual, criada na mesma época da Fibrasil], já reporta mais de 50 contratos com ISPs?

Farhat: Na FiBrasil, temos muito cuidado com a qualidade do serviço. Fechar um contrato com terceiros não significa necessariamente que eles poderão se conectar adequadamente à rede.

Assim, toda vez que a FiBrasil traz um novo inquilino para a rede, tentamos garantir que tudo funcione corretamente. Mas a aceitabilidade do negócio tem sido enorme.

BNamericas: Você tem mais do que esses dois contratos, então.

Farhat: Sim, sim. De um modo geral, eu diria que esse setor [das redes neutras] vai caminhar para algo parecido com a telefonia móvel, com dois ou três players dominantes.

BNamericas: Um dos investimentos mais recentes do CDPQ na América Latina foi na transmissão de energia [a aquisição dos ativos da Terna]. Em quais setores você está apostando na América Latina?

Farhat: O que temos no portfólio hoje são essencialmente as bases para ter uma plataforma mais ampla. Envolve estradas com pedágio, por exemplo. Temos uma grande operação no México em parceria com os australianos da IFM.

Também temos quase 2 GW de geração renovável também no México. Essencialmente 1 GW de eólica e 0,8 GW de solar. É um negócio de que gostamos muito e no qual estamos constantemente à procura de oportunidades de expansão.

No Brasil, além de investir na Fibrasil, adquirimos a operação latino-americana da Terna SPA. Esta operação tem um peso maior no país, mas também uma participação significativa no Uruguai e no Peru. Compramos 100% e a ideia é usar para consolidar e fazer novas aquisições, ou eventualmente participar de projetos greenfield.

Também temos nosso investimento na TAG, em parceria com a Engie. É um excelente investimento, a Engie é uma excelente parceira. E é um setor, esse de transporte de gás, que acreditamos ser essencial para a sustentabilidade da matriz energética.

Porque se você tem muitas fontes renováveis, você também precisa ter uma geração confiável, constante e despachável no curtíssimo prazo, em meia hora. E as principais são turbinas a gás de ciclo combinado. Entendemos que a TAG tem um papel muito importante no setor elétrico e também na capacidade de fornecer acesso à energia de forma mais distribuída.

A tendência é que a TAG amplie essa malha de gasodutos, atendendo cada vez mais os setores industrial, de geração térmica e de distribuição, para que um consumidor baiano possa comprar o gás que está sendo disponibilizado em Sergipe, ou do pré-sal de Campos ou bacias santistas.

BNamericas: Na infra, o que mais está no radar do CDPQ, além das rodovias?

Farhat: Todos os “setores-chave” de infraestrutura são setores que analisamos com muito cuidado – geração e transmissão de energia e, eventualmente, distribuição. Temos toda uma estratégia relacionada às mudanças climáticas. O CDPQ tem cerca de C$ 10 bilhões [US$ 7,3 bilhões] dedicados à transição energética.

[Também] o setor de telecomunicações, sobre o qual já falamos. Em transporte, temos uma parte relevante de nosso portfólio dedicada a rodovias, aeroportos e ferrovias. Por exemplo, temos uma participação importante no Aeroporto de Heathrow e no Eurostar.

BNamericas: Certo, mas não na América Latina. O CDPQ ainda não possui investimentos em aeroportos e ferrovias na região.

Farhat: Verdade, ainda não. Mas é uma área em que poderíamos eventualmente participar.

Uma área que estamos prospectando para entrar é água e saneamento. É um setor que demanda muito capital, investimento de longo prazo, com um novo marco regulatório [no Brasil], que acreditamos modernizar o setor e aumentar a confiança dos investidores.

BNamericas: Como você investiria? Em que formato?

Farhat: Acho que esse setor já está maduro o suficiente para ser visto como infraestrutura 'núcleo'. Estamos analisando transações de infraestrutura como fazemos em outros setores, com o tamanho, duração e solidez de um investimento em infraestrutura.

BNamericas: No Brasil, essa abertura de mercado já gerou alguns grandes players estabelecidos, como Aegea, Águas do Brasil, entre outros, que têm participado ativamente das concessões. O CDPQ está pensando em fazer essas concessões, concorrendo cara a cara com essas empresas?

Farhat: Depende da oportunidade. Poderíamos atuar como um novo agente no setor ou, eventualmente, adquirir participação em empresas estatais ou privadas.

BNamericas: E em portos e aeroportos? Há muitas concessões e privatizações acontecendo na América Latina. Incluindo administradores portuários, como a Autoridade Portuária de Santos. Este perfil de ativos é interessante?

Farhat: No setor portuário, temos grande participação em contêineres. Temos portos de contêineres na República Dominicana e Chile, em parceria com a DP World. É algo que sempre chama a nossa atenção.

Esse modelo [a privatização] do porto de Santos, um modelo de land owner, é algo que a gente conhece bem por causa do Porto de Brisbane. [Nota do editor: Em 2013, o CDPQ adquiriu uma participação de 26,7% na administração do Porto de Brisbane].

Estamos monitorando. Alguns ativos [portuários latino-americanos] são mais maduros, outros nem tanto. Não pretendemos realizar todas as transações. Queremos fazer duas, possivelmente três transações muito boas por ano.

BNamericas: Este ano o CDPQ tem estado quieto em termos de anúncios de investimentos na América Latina, e agora há um processo eleitoral no Brasil, um cenário macro desafiador na América Latina como um todo... Podemos esperar novos anúncios ainda este ano?

Farhat: Não temos pressa. Podemos anunciar algo ainda este ano ou apenas em 2023. Nossa visão é de 30 anos.

No ano passado, investimos US$ 11 bilhões em várias transações ao redor do mundo. O mercado latino-americano sempre será algo difícil e desafiador, e mesmo assim continuamos investindo fortemente na região.

Há três anos, não tínhamos nada investido no Brasil. Hoje já temos mais de US$ 5 bilhões somente em infraestrutura.

Nossa tendência é seguir esse passo, investindo no Brasil e na América Latina, pelo menos até o final da década. Possivelmente, até além disso, já que acabamos desinvestindo em certos ativos, investindo em outros.

Hoje temos US$ 7 bilhões e a América Latina representa algo como 10% a 11% do portfólio global de infraestrutura do CDPQ. A tendência é que isso continue a crescer, sem fazer coisas que não deveríamos fazer – sempre dependendo da qualidade das operações, da qualidade do marco regulatório etc.

BNamericas: E quanto você pretende investir na região nos próximos anos?

Farhat: Vai depender das condições. Mas deve ficar em torno de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões por ano.

 

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