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‘Precisamos ter mais clareza sobre o caminho que o Brasil vai seguir rumo à consolidação fiscal’

Bnamericas Publicado: quarta-feira, 19 outubro, 2022
‘Precisamos ter mais clareza sobre o caminho que o Brasil vai seguir rumo à consolidação fiscal’

Apesar de ter perdido o status de grau de investimento soberano no final de 2015, o Brasil conquistou alguns avanços importantes nos últimos anos, deixando as empresas menos expostas a crises globais graças ao desenvolvimento de um mercado de capitais robusto.

Rafael Guedes, diretor-executivo da Fitch Ratings no Brasil, conversou com a BNamericas sobre o atual ambiente de negócios, os avanços obtidos nos últimos anos e os principais desafios da maior nação da América Latina.

Para ele, o país, que tem o segundo turno das eleições presidenciais marcado para 30 de outubro, precisa dar sinais claros aos investidores sobre o caminho fiscal que seguirá para garantir o controle das contas públicas e a redução da dívida.

BNamericas: Qual é a posição da Fitch no Brasil atualmente?

Guedes: A Fitch Ratings está presente na América Latina há 40 anos e no Brasil temos presença física há cerca de 25 anos. Porém, é importante ressaltar que, desde os anos 1980, trabalhamos na avaliação de ratings de emissores brasileiros, mas em 1997 marcamos presença no Brasil e hoje temos em nossos escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo mais de 100 pessoas, analistas que se dividem em oito áreas, como instituições financeiras, seguradoras, infraestrutura, subnacionais, entre outras.

Vimos uma transformação grande no mercado, quando iniciamos nossas operações no Brasil o principal universo da nossa cobertura eram bancos, hoje temos empresas de diversos outros setores sob avaliação.

BNamericas: Quanto os fatores de risco mudaram no Brasil nos últimos 10 anos?

Guedes: Há dez anos, o Brasil passava por um processo de maior crescimento econômico, e as empresas estavam mais alavancadas diante de seus processos de expansão.

Hoje as empresas estão menos alavancadas porque o crescimento econômico do país é menor.

Claro que existem setores com realidades diferentes, mas de maneira geral esse é o cenário. Há dez anos, o país também tinha o status de grau de investimento e isso gerava menos volatilidade, o ambiente de negócios era melhor.

BNamericas: Apesar da perda do grau de investimento do Brasil, você viu avanços nos últimos anos?

Guedes: Há setores econômicos no Brasil que antes eram muito concentrados e hoje têm uma concorrência acirrada. Isso é verdade no setor de cartões de pagamento. Vemos isso também no setor de tecnologia, de telecomunicações, entre outros segmentos, há mais concorrência.

Além disso, outro grande avanço ocorreu no mercado de capitais brasileiro, que hoje tem um tamanho que nunca teve. Hoje, as empresas brasileiras conseguem se financiar através do mercado de capitais local, graças a um desenvolvimento acelerado, que proporciona às empresas financiamentos de longo prazo com taxas de juros não tão altas.

O número de gestores independentes de investimentos e ativos cresceu muito, gerando uma migração do crédito bancário para o mercado de capitais.

Um exemplo dos impactos dessa transformação do mercado de capitais fica claro se compararmos o que acontecia em épocas de eleições com o que acontece hoje. Em eleições anteriores, quando o mercado externo era a principal fonte de financiamento das empresas, tudo parava por causa da eleição. Hoje, como o mercado de capitais local é importante, o efeito da eleição no financiamento das empresas é bem menor.

BNamericas: Nos últimos anos, temos visto o tópico ESG ganhando força. Que tipo de investidor é mais sensível a esses temas, o investidor estrangeiro ou o brasileiro?

Guedes: O investidor estrangeiro é mais sensível aos tópicos ESG. Pouco depois do início da pandemia, realizamos um webinar aqui na Fitch com investidores locais em que perguntamos sobre isso e percebemos que o investidor local ainda é muito mais sensível ao retorno financeiro dos ativos do que a questões ESG. Mas já podemos ver o início de uma mudança dessa postura, passando a adotar carteiras de investimentos mais sustentáveis.

BNamericas: Na sua opinião, quais setores têm mais dificuldade de adotar uma agenda ESG?

Guedes: Eu não faria uma separação por setores, mas pelo perfil das empresas. O Brasil ainda tem um número grande de empresas familiares, e esse tipo de empresa ainda tem mais dificuldade de adotar uma agenda ESG.

Por outro lado, as empresas com ações listadas sofrem uma pressão maior para adotar as melhores práticas [ESG]. Acionistas de empresas listadas exercem mais pressão sobre a administração das empresas.

BNamericas: Quais são os maiores fatores de risco para o ambiente de negócios no Brasil atualmente?

Guedes: Eu citaria como fatores de preocupação hoje as incertezas em relação à economia global e os efeitos na economia local. Temos a economia da China desacelerando, e isso tem um impacto sobre os preços das commodities exportadas pelo Brasil.

Outro ponto é que o aumento das taxas de juros globais tira a atratividade do mercado local, reduz o apetite dos investidores estrangeiros em colocar dinheiro no país. O fortalecimento do dólar tem causado desvalorização de outras moedas e gerado inflação global.

Além disso, a menor renda da população pressiona a inadimplência em vários setores.

Vale mencionar que ainda temos incertezas sobre como o [governo do] Brasil quer reduzir o endividamento no longo prazo. O orçamento no Brasil é muito rígido e, nesse momento, há uma falta de clareza em relação às regras fiscais. Há incertezas sobre como será a política macroeconômica e fiscal do próximo governo, até agora não houve uma indicação clara.

BNamericas: Do ponto de vista econômico, quais deveriam ser as prioridades do Brasil a partir do próximo ano?

Guedes: Nos últimos anos, tivemos avanços importantes como a reforma da previdência, embora talvez não tão potente quanto o esperado, e também a aprovação da independência do Banco Central.

Olhando para o futuro, uma das prioridades para 2023 deve ser a reforma tributária. É importante que as regras tributárias fiquem mais simples para as empresas se enquadrarem. As empresas gastam muito dinheiro e tempo para gerenciar suas questões tributárias.

Agora, do nosso ponto de vista, como agência de rating, está claro que a reforma tributária pode, sim, ter um impacto de aumentar o crescimento econômico potencial do país, mas também é importante que vejamos uma agenda de consolidação fiscal.

O endividamento [do setor público] do Brasil é de 80% do PIB, um nível 25% maior que de seus pares. Precisamos ter mais clareza sobre o caminho que o Brasil vai seguir rumo à consolidação fiscal, seja por meio de aumentos de impostos ou cortes de despesas.

BNamericas: Qual é a perspectiva para os ratings do Brasil nos próximos meses?

Guedes: Temos uma perspectiva estável do rating soberano do Brasil, o que indica que o cenário mais provável é que não haja alteração no rating soberano nos próximos dois anos.

Estamos analisando o cenário eleitoral no Brasil e acompanhando como será a equipe econômica do país a partir do ano que vem [o mandato do vencedor da eleição começa em janeiro], além dos planos econômicos que serão implementados, seja qual for o governo.

Nossa perspectiva de crescimento econômico do país para 2023 é modesta, com crescimento de 0,8%, o que não é um crescimento espetacular para um país emergente.

BNamericas: Além da questão fiscal, que outro aspecto o Brasil precisa abordar para os investidores a partir do próximo ano?

Guedes: O Brasil precisa ter segurança jurídica, segurança das regras. As regras que existem não podem ser alteradas o tempo todo pelo Judiciário, Legislativo ou Executivo. Um investidor de longo prazo, um investidor de um contrato de concessão, por exemplo, estará presente no país por um período médio de sete governos. O que atrai esse tipo de investidor de longo prazo é a estabilidade das regras.

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